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Foto - http://diariogauche.blogspot.com.br/2013/09/o-ministerio-da-cultura-confirma.html |
O preço
da cultura
Diante
da repercussão a respeito da decisão de permitir que estilistas
financiassem desfiles de moda por meio da Lei Rouanet, o Ministério
da Cultura procurou se defender.
Usando
um raciocínio eminentemente estratégico, em que as palavras de
ordem são a importância econômica da cultura e seu papel na
ampliação do poder do Brasil no jogo internacional, o MinC acabou
por demonstrar a rendição final da política cultural brasileira
aos argumentos do mais crasso economicismo.
Primeiro,
ninguém discute que, de uma certa forma, moda é cultura, assim como
telenovelas, futebol e práticas sexuais. Todos são modos de
produção simbólica de valores.
Uma
definição, porém, tão genérica de cultura não tem função
alguma para a construção de políticas focadas de Estado. Muito
menos a alegada definição de que aquilo que colabora para a
internacionalização do Brasil e a divulgação de sua simbologia
deve ser financiado. Pelo argumento, a TV Globo pode pedir isenção
fiscal para as suas próximas telenovelas.
Como não
podia deixar de ser, é no campo da cultura que se vê, de forma mais
brutal, a deposição de toda e qualquer aspiração crítica e
contestadora de certa esquerda brasileira. Fala-se em "quebra de
paradigma", mas o Ministério da Cultura apenas implementa o
paradigma, cada vez mais hegemônico, de indistinção geral entre
arte, entretenimento e mercadoria.
Afinal,
há de chamar de "gato" um gato. Estilistas são, acima de
tudo, comerciantes donos de loja que organizam sua produção a
partir da sensibilidade às demandas de mercado e a exigências de
máxima rentabilização de seu capital. Mas grupos de teatro não
são empresas, escritores não são comerciantes e um quadro não é
uma mercadoria, mesmo que tenha um preço.
As
políticas culturais foram criadas exatamente para garantir autonomia
para a produção artística contra sua colonização pela lógica
mercantil, contra sua restrição à condição de mero
entretenimento "cool", além de pensar formas de impedir
a consolidação de práticas de dirigismo cultural.
Contudo,
para que algo dessa natureza fosse possível, estruturas como a Lei
Rouanet deveriam ser radicalmente modificadas.
Um bilhão e duzentos mil reais foram perdidos pelo Estado para que empresas fizessem políticas de marketing às custas do erário, financiando, principalmente, musicais, Oktoberfest, festas gastronômicas, atividades da torcida do Palmeiras e, agora, desfiles de moda.
Um bilhão e duzentos mil reais foram perdidos pelo Estado para que empresas fizessem políticas de marketing às custas do erário, financiando, principalmente, musicais, Oktoberfest, festas gastronômicas, atividades da torcida do Palmeiras e, agora, desfiles de moda.
Pergunte,
no entanto, quanto desse dinheiro foi direcionado à construção de
conservatórios de música, bibliotecas ou em auxílio a saraus
literários na periferia.
Artigo
do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP.
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