domingo, 12 de março de 2017

Cultura. Nunca antes nas telas desse país.

POR SONIA FARDIN*
EP6_cultura
O documentário brasileiro Menino 23 (2016), com direção de Belizário Franca, está na lista de possíveis selecionados para concorrer ao Oscar de 2017 na categoria Documentário de Longa-Metragem.
 
Em que pese essa premiação seja hegemonizada pelos interesses da indústria cultural americana, tal fato não é irrelevante. 

Menino 23 é uma realização ancorada em robusta e corajosa pesquisa historiográfica produzida para tese de doutoramento do historiador Sidney Aguilar. 

Foi a indicação de existência de tijolos com a inscrição da suástica nazista, feitos no município de Campina do Monte Alegre, interior de São Paulo, que o levou a história de um grupo de meninos negros levados de um orfanato no Rio de Janeiro, na década de 1930, por fazendeiros-empresários da família Rocha Miranda para trabalhar sob regime de escravidão no interior paulista. 

Os meninos eram identificados na documentação da fazenda apenas por números.  Aluízio Silva, sobrevivente dessa história de opressão e eugenia,  identificado como Menino 23, é quem forneceu ao historiador e posteriormente ao  documentarista, os detalhes dessa história de aproximação dos capitalistas brasileiros com a ideologia nazista, a eliminação da população negra  e a permanência do regime escravista em plena república; denunciando a aproximação dos Rocha Miranda com a Ação Integralista Brasileira e atuações coordenadas entre instituições estatais, educacionais, religiosas e empresariais nessa trama fascista. Mesmo deixando apenas entrever, o documentário também pontua traumas decorrentes de provável exploração sexual de alguns meninos.

A narrativa é construída com entrevistas de sobreviventes e familiares, registros de documentos oficiais, locações em lugares onde os meninos foram escravizados e também recriações de cenas e situações narradas pelos entrevistados. Apesar do recurso da encenação alusiva às lembranças narradas, nada no filme é ficcional. As cenas criadas têm o rigor da representação de situações trazidas pelas memórias dos sobreviventes e seus familiares, têm o objetivo de ilustrar práticas e situações que, na produção da história oficial da sociedade capitalista, são caladas e invisibilizadas.
Menino 23 também é uma obra de grande qualidade técnica e estética, um dos exemplos do acúmulo teórico, estético e político da produção audiovisual brasileira recente.
A produção de filmes longa metragens brasileiros ficcionais e documentários teve um expressivo aumento nos últimos treze anos, em 2013 alcançou a marca dos 100 filmes/ano; o maior índice até então registrado era da década de 1980, 80 filmes/ano. Também a recepção nacional e internacional das produções no último período obteve ampliação de público e premiações em importantes festivais e mostras dentro e fora do Brasil.
Contudo, o que destaco do período recente é a ampliação da produção e veiculação de filmes documentários que lograram inserção nos circuitos públicos e privados de exibição, maior reconhecimento do público nacional bem como premiações em eventos de atestação cultural como mostras e festivais historicamente ocupados por produção ficcional.
Vale registrar que a cinematografia brasileira pode ser considerada como uma das que sempre manteve na cena cultural a realização obras documentais e trajetórias de nomes emblemáticos, apenas para citar alguns: Humberto Mauro, Linduarte Noronha,Vladimir Carvalho, Paulo César Saraceni, Geraldo Sarno, Carlos Nader, Leon Hirzman, Eduardo Scorel, Silvio Tendler, Silvio Back, Eduardo Coutinho, Maurice Capovilla, Paulo Gil Soares, Sérgio Muniz, Renato Tapajós, Helena Solberg, João Batista de Andrade, Arthur Omar Octávio Bezerra, Nelson Pereira dos Santos e José Padilha.
Contudo, até recentemente, a maioria das produções, mesmo desses nomes consagrados, pouco repercutia fora dos espaços de circulação de um público restrito envolvido com questões audiovisuais e político-culturais. Somente no final da década de 1990 o documentário de longa-metragem brasileiro logrou algum espaço nas telas de exibição (cinemas e canais especializados de TV), apresentando diversidade temática com relativo sucesso de público e crítica, estimulando alguns cineastas a firmaram-se exclusivamente como realizadores documentaristas.
Porém, é sabido que produções audiovisuais com explicita intenção de “contar uma história real” nunca foi somente prerrogativa ou iniciativa de cineastas com formação e ou atuação profissionalizada na área, nem somente com vistas à inserção no circuito comercial de difusão. São muitos os audiovisuais, sob a forma de reportagens e de /ou produção de documentários stricto sensu, realizados por indivíduos e grupos com objetivo de produzir instrumental audiovisual para as lutas sociais e disputas de todas as vertentes políticas. 
Com a facilitação do acesso a equipamentos de captação de imagens em 16 mm desde do final dos anos 1950; nas décadas seguintes em super 8 e posteriormente em vídeo, a produção de documentação audiovisual passou a ser uma das possibilidades de realização de projetos individuais e coletivos para entidades estudantis, sindicais e culturais. Contar histórias de vidas reais, documentar memórias sociais e episódios históricos, assim como registrar os embates do presente, tornou-se cada vez uma das dimensões da luta política dos movimentos sociais e setores da esquerda brasileira. 
Dois exemplos da década de 1980 são a Associação Brasileira de Vídeo Popular (ABVP) e o Centro de Trabalho Indigenista (CTI). Quanto à primeira, trata-se de uma entidade com ramificação e participação de produtores de todo o país; como afirma Gonçalves, era um projeto de atuação política que pretendia “conceber termos de produção, linguagem e participação popular”. Já a segunda, seu “trabalho utiliza a produção de vídeos como forma de discussão e debates para criar uma reflexão sobre a identidade dos povos e seu lugar no mundo, sendo os próprios índios autores e realizadores de alguns dos documentários.” ¹
É vasta a produção brasileira, exatamente por isso a intenção aqui não é apresentar uma lista completa de autores e/ou obras, tampouco realizar um histórico aprofundado do gênero no Brasil. A proposição é bem modesta: fazer algumas reflexões embrionárias sobre dois campos de realização de documentários que sempre existiram na cena brasileira, mas que ampliaram sua dimensão nos anos dos governos Lula e Dilma.
Um deles é o das produções que visam inserção no mercado de telas de exibição comercial, cinemas e canais TV especializados públicos e privados, em muitos casos fazendo uso de editais de fomento gestados por políticas públicas de incentivo à produção audiovisual e/ou leis de incentivo fiscal, visando o reconhecimento dos circuitos de atestação promovido por festivais de médio e grande porte.  
O outro é o de produções focadas em incidir de forma rápida e ampla em disputas e lutas sociais diversas, nem sempre dispondo do tempo exigido pela burocracia de cadastros e tramites de editais de fomento e afins, tampouco da empatia com os interesses de grandes corporações que, favorecidas por leis, fazem uso de parte dos impostos públicos para vinculação de sua imagem à produção audiovisual. Em síntese, o que proponho é uma breve reflexão sobre esses dois campos políticos do documentar, divulgar e preservar narrativas da vida real brasileira nos primeiros anos do século XXI.
É preciso registrar que nos últimos treze anos, quebrar hegemonias de setores historicamente privilegiados da indústria cultural, desmontar dinâmicas excludentes, emular novos formatos, diversificar temas e democratizar canais de difusão foram focos das políticas públicas do governo federal voltadas ao fomento à produção e  à exibição  de documentários.
No que tange ao primeiro campo citado, no rol de políticas públicas o Programa DOCTV foi o grande protagonista. Como afirma Verena Carla Pereira²
  • A partir de 2003, o Minc passou a desenvolver ações voltadas para a televisão aberta e para televisão pública. Tais ações eram norteadas pela criação e aplicação de novos modelos de negócios que se adequassem melhor ao cenário audiovisual do período. As ações desenvolvidas em parceria com a TV pública criaram políticas de fomento à produção independente nas diversas regiões do país, integrada à teledifusão nacional em rede. 

  • Dentro desse contexto, foram criadas ações como o DOCTV nacional, o DOCTV Ibero América, Revelando os Brasis, Documenta Brasil, Banco de Documentários da América Latina, Programadora Brasil, entre outros. Entre essas ações a mais próxima do modelo empregado no DOCTV é o Programa Documenta Brasil, produzido pela Associação Brasileira de Produtoras Independentes de Televisão (ABPI-TV) em parceria com o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), com o apoio da SAV/Minc, e o patrocínio da Petrobrás. O concurso Documenta Brasil visa apoiar a produção e lançamento de obras audiovisuais inéditas do gênero documentário e também é destinado às empresas audiovisuais brasileiras de produção independente.  
O programa renovou a forma de produção de documentários com a articulação de um sistema de teledifusão, de distribuição, de comercialização. Essas e outras ações fizeram parte de um grande sistema único criado para viabilização desse Programa.³   Também foram implantadas ações de formação tanto para a realização quanto para a formatação e desenvolvimento de projetos. Como afirma Gustavo Soranz Gonçalves[4]
  • O DOCTV mostrou-se fundamental na formação de recursos humanos para a produção documental, especialmente nos estados das regiões mais afastadas dos grandes centros, como os estados do Norte e Nordeste do país, que geralmente não contam com produção estabelecida de conteúdo audiovisual autoral. Essas oficinas foram fundamentais para estabelecer parâmetros para a formatação de projetos, contribuindo para a realização de trabalhos mais elaborados, que passavam a se distanciar de um modelo preponderantemente jornalístico ou institucional”.
Certamente um dos pontos centrais dessa política foi a implantação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), operadora da TV Brasil, pois somente com a articulação entre recursos para fomento à produção, formação e veiculação foi possível gestar uma cadeia completa para fortalecimento dos projetos de documentários que não se enquadram nos padrões favorecidos pelas leis de incentivo à produção cultural. 
Nessa composição de políticas públicas integradas a instituição de uma rede pública de TV envolvendo todos os Estados teve papel determinante. Até 2007 o DOCTV, já havia possibilitado a criação de mais de 200 documentários e a exibição de mais de 3.000 horas de material nas TVs públicas de todo o país. O programa foi adotado também por alguns países da América Latina e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Apesar de enfrentar deficiências históricas de infraestrutura nas TVs regionais e burocracias na liberação de recursos para as edições do DOCTV, como afirma a pesquisadora Verena Carla Pereira, estava presente “a vontade política de construir um projeto alternativo de televisão brasileira que possibilite uma maior abertura à produção independente de documentários. Um memorial completo do que foi esse projeto está publicado em Doctv, operação de rede (2011) de autoria de Maria do Rosario Caetano apresentando dados que corroboram a afirmação acima.
Também outros setores governamentais além do Minc e EBC orientaram ações em  conexão com essa política, a exemplo do Projeto Marcas da Memória, da Comissão de Anistia, órgão do Ministério da Justiça para a reparação das violências do Estado contra a sociedade brasileira no período da ditadura civil-militar de 1964/1985. 
É significativa a abrangência temática e geográfica que alcançou, embora com recursos reduzidos colaborou para a produção e circulação em todo Brasil de 20 produções audiovisuais focadas no direito à memória como um dos pilares de reparação social dos grupos políticos que foram violentamente massacrados por defender um projeto de sociedade mais justo e se contrapondo ao estado ditatorial civil-militar. 
Consagrados documentaristas como Sílvio Tendler e Renato Tapajós além de outros iniciados e iniciantes conseguiram realizar projetos importantes que não mediram palavras e imagens  para dar dimensão crível às reais barbáries cometidas pela repressão estatal.  Dentre esses, Repare Bem (2013) com direção de Maria Medeiros – documenta a história de sobrevivência de Denise Crispim e  Eduarda Ditta Crispim Leite, mulher e filha do militante político Eduardo Leite, conhecido como “Bacuri”, assassinado  aos 25 anos em 1970, depois de ter sofrido 109 dias de tortura – conquistou  três Kikitos do Festival de Gramado 2013, incluindo o de melhor filme da seção estrangeira para o júri e os críticos.  Fez também parte do Marcas da Memória ampla distribuição gratuita dos documentários para escolas, museus, centros acadêmicos, associações culturais e movimentos sociais em todo Brasil, fomentando cineclubes, mostras e debates.
Contudo, em que pese a sinergia de ações e políticas públicas para a produção e difusão de narrativas contra hegemônicas, uma observação a ser feita é que uma vertente mais palatável de documentários, especialmente sobre vida e obra de artistas e grupos musicais famosos, foi a que logrou maior visibilidade na grande mídia e decorrente impulso nas programações das salas de cinema comerciais; a maioria é de excelente qualidade técnica e estética, mas em grande parte documenta indivíduos e fatos culturais consagrados,  ou seja,  replica a celebração de ícones investidos da monumentalidade instituída pela indústria cultural hegemônica que contam com inegável apelo para nichos de mercado já cativados, tais como: A música segundo Tom Jobim (2012) de Nélson Pereira dos Santos e Dora Jobim; Chico: Artista Brasileiro (2015), Direção de Miguel Faria Jr. e Diana Vasconcellos;  Dzi Croquettes (2009), direção de Tatiana Issa e Raphael Alvares; Loki, Arnaldo Batista (2008), direção de Paulo Henrique Fontenelle, Waldick Soriano, sempre no meu coração (2007), direção de Patrícia Pilar,  entre outras.
Em outra direção está o segundo campo citado, com uma profusão de diversificados trabalhos oriundos da potente apropriação dos movimentos sociais da produção de documentários como ferramenta de explicitação dos conflitos e contradições da sociedade brasileira atual. 
Impulsionadas por programas e políticas públicas como o Cultura Viva, Mídia Livre, Pontos de Memória entre outros, uma vasta produção audiovisual foi criada por coletivos e redes, temáticas e identitárias, que se forjaram pelo Brasil nas últimas décadas para fazer luta política.
Essa produção ainda não foi devidamente mapeada, nem contou com canais dedicados à sua ampla veiculação, mas tem disputado presença tantos em redes sociais, como em mecanismos alternativos de armazenamento e difusão, assim como vem circulando em  mostras e festivais militantes existentes em todo Brasil. Cito em especial o caso do festival Mostra Luta, organizada anualmente em Campinas desde 2008 com foco em exibição, debate e preservação de produções audiovisuais produzidas de forma independente e colaborativa que abordam temáticas e lutas sociais. O acervo acumulado pela Mostra Luta entre 2008 e 2014 soma  244 produções oriundas de todas as regiões do pais abordando as contradições e conflitos da sociedade capitalista no campo e na cidade (Figura 1)  é um dos exemplos da amplitude e capilaridade desse campo de produção de documentários (www.mostraluta.org.br).
No mesmo campo de criação contra hegemônica é significativa também a repercussão de Bichas, o documentário (2015), produzido por jovens homossexuais que foram atacados e ameaçados em uma rua de Recife por homofóbicos; o grupo registrou suas histórias de forma simples e direta. Feito no calor na luta, postado nas redes sociais como resposta imediata à um ataque individual, mas percebido e devidamente tratado como questão social, em poucos dias alcançou dezenas de milhares visualizações e compartilhamentos.
Cito aqui apenas alguns exemplos, mas certamente, mesmo que em parte ainda sob formas e modelos de produção e difusão pautados pelos canais comerciais, nunca antes na história das telas (de diversos formatos) este pais pode assistir tantos documentários que mostram não apenas a potência cultural e história política recente sob uma ótica crítica, mas, também e sobretudo, os conflitos da sociedade brasileira atual. Ainda há muito para ser visto e revisto sobre esse período recente da cultura brasileira.
Esse enorme acervo e a experiência histórica de gestão pública que documentam não podem ficar esquecidos na prateleira da história.
___
¹GONÇALVES, Gustavo Soranz. Panorama do documentário no Brasil. Centro Universitário do Norte – Uninorte/Amazonas. Doc On-line, n. 01 Dezembro 2006, 79-91.p. 87. disponível em www.doc.ubi.pt.

²PEREIRA, Verena Carla. A produção de documentários através do DOCTV. http://www.revistas.usp.br/Rumores/article/view/51143

³PEREIRA, Verena Carla. Produção documentária estatal no DOCTV. Dissertação de mestrado. Universidade Estadual de Campinas . Instituto de Artes. Programa de Pós-Graduação em Multimeios.2010. http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000774903
[4]Op. Cit

*Sonia Fardin é historiadora e trabalhadora da cultura.

brasil
 Revista Esquerda Petista

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

KEN LOACH é Cineasta. “O Estado cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua”.

I Daniel Blake
O diretor Ken Loach em Londres.  DAVE J HOGAN/GETTY IMAGES).

Aos 80 anos, cineasta inglês estreia ‘Eu, Daniel Blake’, o filme que lhe rendeu a segunda Palma de Ouro.


O filme Eu, Daniel Blake, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas do Brasil, é a história de um homem bom abandonado por um sistema mau. Um trabalhador honrado sofre um ataque do coração que o condena ao repouso. Sem renda, solicita apoio do Estado e se vê enroscado em uma cruel espiral burocrática. Esperas absurdas ao telefone, entrevistas humilhantes, formulários estúpidos, funcionários desprovidos de empatia por causa do sistema. Kafka nos anos de austeridade. Nessa espiral desumanizadora Daniel encontra Katie, mãe solteira de dois filhos, obrigada a se mudar para Newcastle porque o sistema diz que não há lugar para alojá-los em Londres, uma cidade com 10.000 moradias vazias. Daniel se torna um pai para Katie e um avô para as crianças. A humanidade que demonstram realça a indignidade do monstro que os condena. Aí está, como terão reconhecido seus fiéis, o toque de Ken Loach.

Seu cinema sempre esteve do lado dos menos favorecidos e, aos 80 anos, a realidade continua lhe dando argumentos para permanecer atrás das câmeras. Eu, Daniel Blake, Palma de Ouro no último festival de Cannes (a segunda de Loach), é um filme espartano. Não precisa de piruetas para comover. A história foi escrita pelo amigo e roteirista Paul Laverty, depois de percorrer bancos de alimentos, centros de emprego e outros cenários trágicos do Reino Unido de hoje, onde conheceu muitos daniels e katies. A realidade de Loach (Nuneaton, 1936) está lá fora para quem quiser vê-la. Mas, em um mundo imune aos dados, a emoção que o cineasta mobiliza para contar essa realidade se revela mais valiosa que nunca. Recebe o EL PAÍS em seu escritório no Soho londrino.
Pergunta. Como chegamos à situação que seu filme descreve?
Resposta. É um processo inevitável, é a forma como o capitalismo se desenvolveu. As grandes corporações dominam a economia e isso cria uma grande leva de pessoas pobres. O Estado deve apoiá-las, mas não quer ou não tem recursos. Por isso cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua. Porque você não preencheu seu currículo direito ou chegou tarde a uma entrevista. Montam um sistema burocrático que te pune por ser pobre. A humilhação é um elemento-chave na pobreza. Rouba a sua dignidade e a sua autoestima. E o Estado contribui para a humilhação com toda essa burocracia estúpida.
P. Abandonar os mais desfavorecidos é uma escolha política?
R. É uma escolha política nascida das demandas do capital. Se os pobres não aceitassem que a pobreza é sua culpa, poderia haver um movimento para desafiar o sistema econômico. Os meios de comunicação falam de gente folgada, de viciados, de pessoas que têm muitos filhos, que compram televisores grandes… Sempre encontram histórias para culpar os pobres ou os migrantes. É uma forma de demonizar a pobreza. Neste inverno, muitas famílias terão de escolher entre comer e se esquentar. Existe uma determinação da direita para não falar dessas coisas e é assustador tolerarmos isso.
P. A situação lembra Cathy Come Home, seu filme de 1966 sobre uma família jovem que está na rua. O que mudou em 50 anos?
R. Agora é pior. Naquela época, os elementos do Estado de bem-estar ainda funcionavam, agora não. A sociedade, hoje, não está tão coesa. Acontece em toda a Europa. O sistema se tornou pior porque o processo capitalista avança.
P. As histórias humanas são seu veículo para articular mensagens políticas?
R. Todas as histórias humanas são políticas. Têm consequências políticas. Nem Katie nem Dan são animais políticos. Não fazem discursos, não participam de reuniões. Mas a situação em que se encontram é determinada pela política. É preciso haver indivíduos. Não vale alguém que represente algo. Devem ser idiossincrásicos. Devem ser pessoas com coisas particulares que as tornem especiais.
P. Todo o cinema é político?
R. O cinema norte-americano cultua a riqueza. Os personagens têm dinheiro e casas bonitas. E nunca se explica de onde vem esse dinheiro. Todos parecem muito saudáveis, têm corpos perfeitos. O subtexto é que a riqueza é boa, que o privilégio é bom. Além de outras mensagens, como que o homem com um revólver resolverá todos os seus problemas. Há uma agenda de direita no cinema norte-americano. Com exceção de Chaplin, claro. Seus filmes contêm uma certa política radical, a do homem pequeno que vence.
P. Você apoia Jeremy Corbyn, o polêmico líder trabalhista. Acredita que seu projeto de esquerda poderia mudar a realidade descrita em seu filme?
R. Sim, sou otimista. Sanders, Podemos, Syriza... Existe uma sensação de que outro mundo é possível. A ascensão de Corbyn traz muita esperança, mas é sistematicamente atacada por toda a imprensa, pela BBC, e até pelos jornais de esquerda. É uma grande batalha, mas é muito popular entre as bases.
P. Acontece com frequência, como seu país demonstrou, que as mensagens populistas e xenófobas atraiam os mais desfavorecidos.
“O cinema norte-americano cultua a riqueza. Os personagens têm dinheiro e casas bonitas. E nunca se explica de onde vem esse dinheiro. Há uma agenda de direita nesse cinema”
R. Oferecem uma resposta simples: os imigrantes roubaram seu trabalho. É igual ao crescimento do fascismo nos anos 1930. É fácil apontar o diferente. As pessoas são sempre vulneráveis às respostas simples. A esquerda tem uma resposta mais complicada.
P. O que pensa quando ouve Theresa May dizer que os conservadores são o partido da classe trabalhadora?
R. Seria uma piada, não fosse o fato de que ninguém a questiona. É um Governo que utiliza a fome como arma, que deixa as pessoas passarem fome para discipliná-las. É propaganda.
P. Insinuou que Jimmy’s Hall (2014) seria seu último filme, mas voltou e ganhou a Palma de Ouro. Desta vez é para valer?
R. Não sei. Como no futebol, jogaremos uma partida de cada vez. Há muitas histórias para contar, mas, fisicamente, o cinema é muito exigente.
P. Como gostaria de ser lembrado?
R. Como alguém que não se rendeu, acho. Não se render é importante, porque a luta continua. E as pessoas tendem a se render quando ficam velhas.

sábado, 14 de janeiro de 2017

A batalha perdida pela mídia.

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O crescimento avassalador das ideias conservadoras no Brasil tem uma causa principal: o amplo e irrestrito domínio que o pensamento neoliberal estabeleceu no País através da monopolização da mídia.




As esquerdas perderam totalmente a grande batalha pelos corações e mentes dos brasileiros na medida em que, quando no governo, foram incapazes de criar um sistema alternativo de comunicação que fizesse o contraponto ao sistema ideológico de lavagem cerebral montado pela grande burguesia nacional, sempre associada aos interesses do imperialismo.

Uma prova de que a derrota das esquerdas nessa batalha ideológica foi enorme, é que até mesmo as expressões "burguesia" e "imperialismo" foram banidas dos meios de comunicação e parece que até mesmo os representantes da esquerda têm medo de utilizá-las.

As maiores chances de estabelecer um confronto ideológico contra o receituário neoliberal foram perdidas pelos governos de Lula e Dilma, principalmente do primeiro, quando, fortalecidos pelo alto desenvolvimento econômico e social que o Brasil experimentou a partir de 2002, preferiram escolher o caminho da composição com os grandes meios de comunicação, na esperança de que assim pudessem ser neutralizados.

As escandalosas verbas de publicidade que os governos do PT atribuíram a Rede Globo, com a expectativa de que com isso pudessem comprar uma certa imparcialidade da emissora, logo se mostrou equivocada. Ao primeiro sinal de crise, a Globo se alinhou ao lado da imprensa mais venal do País, representada pela Revista Veja, na campanha que levou a derrubada de um governo legitimamente eleito.

Hoje, os espaços para uma mídia independente se restringem às redes sociais e a alguns sites, como é o caso aqui do Sul21, em meio a um mar de jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, todos falando a mesma linguagem antipopular, tentando convencer os brasileiros das vantagens de sermos governados por figuras com Temer, Sartori e Marchezan.

As pessoas, que por opção própria se recusam a assistir a Rede Globo e a RBS, que não querem ler a Revista Veja ou o jornal de Zero Hora, são submetidas a outro tipo de pressão ideológica. Há pouco tempo uma vereadora de Porto Alegre reclamou que os postos públicos de saúde tinham em suas salas de espera telas de televisão com a programação da Globo ou de canais a ela filiados.

Como um novo "big brother", o cerco às pessoas é total. Bares, restaurantes, hospitais, academias de ginástica, em qualquer local onde pessoas esperam para serem atendidas ou praticam algum tipo de atividade em conjunto, lá estão as telas de televisão sempre com os mesmos programas.

Meu amigo, o Dr. Franklin Cunha, lembra que nos consultórios médicos e odontológicos, onde não seria de bom tom a existência de telas de televisão, já que seu público é, teoricamente, de um padrão cultural mais alto, a lavagem cerebral se faz através de revistas e jornais.

Analista do comportamento de seus ex-colegas, Franklin diz que jamais encontrou uma Carta Capital, por exemplo, nessas salas de espera. Quem quiser ler alguma coisa antes de ser atendido, precisa se contentar com Veja (presente em 9 de cada 10 consultórios), Isto É, Época e a imbatível, Caras (todos têm Caras) e uma que outra das revistas, ditas para mulheres.

Aliás, o sucesso dessas tais revistas femininas é mais uma prova de que a lavagem cerebral é um sucesso e depõe contra as ativistas dos movimentos em defesa da emancipação das mulheres.

Estou propondo ao Franklin criarmos um teste para conhecer o nível ideológico de nossos conhecidos. Quem citar como fonte de qualquer informação sobre política, o Jornal Nacional, a Revista Veja ou Zero Hora, só poderá conversar conosco sobre amenidades, como previsão do tempo ou no máximo algum assunto relacionado ao futebol.

Mulheres que tenham assinatura de Marie Claire, por exemplo, serão avaliadas apenas pelos seus atributos estéticos e nos recusaremos a discutir com elas qualquer assunto que tenha alguma relação com a política, mesmo correndo o risco de nos chamarem de machistas.

Pior seria nos chamar de alienados.

Marino Boeira é jornalista, formado  em História pela UFRGS.


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O impeachment como resultado da exclusão informativa.


 
 
O referido processo, admitido inicialmente na Câmara, em rito previsto pela Constituição e regulamentado pelo Supremo Tribunal Federal, em abril daquele ano, foi apresentado pelos então oposicionistas como impeachment, caso raro na República brasileira e inédito, até então, no chamado período da Nova República.
Os governistas à época interpretaram o pedido de impedimento da presidenta eleita como uma manobra política e chamaram o episódio de golpe parlamentar, golpe branco ou, simplesmente, golpe. A imprensa brasileira, por sua vez, de forma quase unânime, alinhou-se à versão de que se tratava de um impeachment, excluindo, quase que completamente, a percepção de que se estava diante de um golpe, e restringindo, assim, o direito do eleitor à pluralidade de temas e à diversidade de vozes, como convém ao jornalismo e ao Estado democrático de direito.
É neste contexto de exclusão comunicacional do país – de uma esfera pública atrofiada em sua capacidade de problematizar questões, de acolher discursos, de validar argumentos e de construir consensos que poderiam vir a bater à porta de palácios, parlamentos e tribunais (HABERMAS, 2003) – onde se encontra o objeto de estudo aqui abraçado. Trata-se das representações que fazem diferentes vozes – cientistas políticos, cientistas sociais, juristas, economistas, jornalistas etc. do Brasil e do exterior -sobre o papel da imprensa no episódio da destituição.
Referidas vozes, a despeito do reconhecimento nacional e internacional de seus estudos e de suas práticas, não encontraram a acolhida da imprensa brasileira para os seus discursos e para o bom debate. Manifestaram-se, oportunamente, em palestras, artigos e livros, levados ao público em tom de denúncia, desde os primeiros movimentos pró-impeachment que, se não compensam os possíveis estragos políticos – e historiográficos – da exclusão comunicacional, buscam um lugar para a destituição da presidenta, na acepção de golpe, perante a esfera pública e a história.
Partindo da premissa de que o jornalismo deve abordar os fatos e temas de interesse público de forma ampla, profunda e isenta, de forma a contribuir com a inclusão comunicacional, pergunta-se àquelas vozes dissonantes que papel teve a imprensa na destituição. Intui-se, como resposta, que a imprensa teve importante papel como coadjuvante da destituição e que se deslocou do âmbito do jornalismo para o da publicidade, do interesse público para o do interesse privado, na criação de opinião pública favorável ao impeachment.
Exclusão comunicacional
A exclusão comunicacional é um conceito que se propõe aqui, na tentativa de facilitar o entendimento da participação da imprensa relativa à destituição da presidente Dilma Rousseff. É um conceito em formação, mas não exatamente novo, dado que seus possíveis significados há muito aparecem em expressões utilizadas por autores dedicados a analisar a negação total ou parcial do direito à comunicação – entenda-se como as liberdades de informar e de ser informado, de se expressar e de dialogar – a que são submetidos indivíduos e grupos.
Neste sentido, contribuem, entre outros autores, Habermas (2003); Maia e Castro (2006); Gomes e Maia (2008); Kucinski e Lima (2009); Marques e Costa (2009); Marques e Matos (2011); Lima (2012); Lima, Guimarães e Amorim (2014); e Perdigão (2016), ao defender que aquelas liberdades são uma condição ao Estado democrático; que, uma vez asseguradas, incluem o cidadão como sujeito da comunicação e capaz de se auto inserir como protagonista nos processos econômicos, políticos, sociais e culturais que impulsionam para cima o desenvolvimento humano.
Perdigão (2016) acrescenta que a exclusão comunicacional gera outras formas de exclusão. O autor defende que, do ponto de vista político, o comunicacionalmente excluído é quem não participa da esfera pública, onde as questões do mundo da vida são problematizadas, onde se constroem, por via da validação dialógica de argumentos, os consensos que apontam possíveis soluções, é quem não se identifica como ator político, não estabelece relação de pertencimento com a política, tampouco reconhece que a sua alienação, deliberada ou inconsciente, também é da política.
Ainda conforme Perdigão (2016), sendo a exclusão comunicacional entendida como uma liberdade a menos, um direito a menos, uma capacidade a menos, um poder a menos para muitos, é factível pensar que o seu contrário, a inclusão comunicacional, estaria reservada a uns poucos. A exclusão comunicacional seria um processo de transferência de poder que ampliaria os poderes de informar e de ser informado, de se expressar e de dialogar para os que já concentram ativos de poder, como o capital e os meios de produção.
Essa pode ser entendida como uma questão de fundo. A destituição da presidente Dilma Rousseff, como se analisará a seguir, foi perpetrada no Brasil dos comunicacionalmente excluídos da esfera pública, onde uma elite de super privilegiados da comunicação domina os meios de produção e de circulação da opinião pública; um território onde os temas em debate são poucos, onde as vozes são as mesmas, onde as representações da realidade são as da ótica e do interesse dos hegemônicos, onde o interesse público é retórica e a democracia é simulacro.
Meios de comunicação no Brasil e a destituição
Na perspectiva da destituição presidencial, tem-se, em Guimarães (2016), que o sistema de comunicação brasileiro é uma ferramenta da classe hegemônica “para construir o imaginário do povo, para manipular as informações e para justificar o sistema econômico e social vigente e desmoralizar aqueles que lutam por mais igualdade, mais liberdade, mais fraternidade e pelos direitos das minorias, em um contexto de desenvolvimento” (p. 382).
Para o autor, os meios de comunicação aportaram “ajuda providencial” para “derrubar ou imobilizar a presidenta e, assim, anular a vontade da maioria do povo brasileiro” (p. 379). Borón (2016) classifica os principais meios de comunicação do Brasil como “tercer protagonista” [os outros dois seriam o parlamento e o Judiciário] (…), “cuya vocación golpista e ethos profundamente reaccionario son amplamente conocidos porque han militado desde siempre en contra de qualquier proyecto de cambio en uno de los países más injustos del planeta” (p.114).
Além de serem excludentes em relação a quem fala, ao que se fala e ao como se fala na televisão; de manipularem os conteúdos segundo os interesses políticos e econômicos privados, em detrimento do interesse coletivo; e de servirem a projetos antidemocráticos e injustos, na análise de Merlin (2016), “os meios de comunicação corporativos assumem um papel crucial: configuram a realidade, operam sobre as subjetividades, manipulam significações: definitivamente, colonizam a opinião pública” (p. 412).
Na perspectiva da destituição, a autora afirma que “isso se voltou à produção de desprestígio da direção do PT, (…), para desestabilizar a presidenta Dilma Rousseff, apesar de sua legitimidade por ter sido eleita democraticamente”, conseguindo impulsionar um processo de impeachment. (p. 412-413). A autora chama atenção para outra característica dos meios no Brasil, a da concentração da propriedade, no que é seguida nas análises mais recentes, como em Peixoto (2016).
No Brasil, não há, rigorosamente, mercado de informações. Há um peculiar e pré-moderno sistema oligárquico-familiar, que veicula e advoga um ideário a um só tempo escravocrata e ultraliberal, e que se constituiu no rastro da última ditadura, como é o caso da Rede Globo e da Rede Brasil Sul, paradigmaticamente. São sete famílias que comandam as pautas, que igualam manchetes, que detêm televisões, jornais, rádios e agências de notícias que não respondem a ninguém, que mal tributam (quando não sonegam) e que constituíram um véu de ignorância e ódio racista contra o que é democrático, popular e institucional (PEIXOTO, 2016, p. 30).
A este respeito, amplia Miranda (2016):
Hoje, é público e notório, aqui e fora do Brasil, que a concentração da propriedade dos vários meios de comunicação, para desgraça de nossa democracia, acha-se nas mãos de poucas famílias. Trata-se de pessoas cujas empresas profundamente conservadoras, manipulam leitores, ouvintes e telespectadores, criando o que já foi chamado de opinião publicada e não opinião pública (MIRANDA, 2016, p. 64-65).
Neste aspecto da concentração da propriedade, e de suas possibilidades nefastas à democracia e aos direitos humanos, Rosário (2016) considera que os meios de comunicação regrediram nas décadas mais recentes, não obstante a redemocratização do país e a Constituição dita cidadã. O autor observa que “o sistema de comunicação não foi tocado após o fim do regime militar. Ao contrário, os feudos se consolidaram ainda mais. O universo midiático tornou-se ainda mais oligárquico e corrupto ao longo dos últimos 30 anos de democracia” (p. 327).

A imprensa e a cronologia da destituição

A destituição da presidenta Dilma Rousseff teve a participação da imprensa, como não poderia deixar de sê-lo. A questão que se coloca, no intuito de analisar o papel desempenho por essa imprensa, é perceber a quantidade e a qualidade da referida participação, expressos no planejamento da cobertura (pauta), no conteúdo veiculado (notícia, notas de coluna, artigos, editoriais, entrevistas, debates etc.) e mesmo na repercussão dos conteúdos abordados (suíte), que lhes prolonga a vida útil e lhes agrega valor simbólico de relevância, às vezes de verdade.
As teorias da comunicação dão suporte a pensar que mecanismos como a agenda setting e o newsmaking, entre outros, determinam, em grande medida, a formação de certas opiniões, como se vê em “Espiral do Silêncio” (HOHLFELDT; MARTINO; FRANÇA, 2012). Os filtros, os enquadramentos e as representações que a imprensa impõe contribuem à formação de opinião pública favorável aos interesses dos donos dos meios de produção de sentido, ao mesmo tempo em que se afastam, desta forma, do interesse público, às vezes até do princípio básico da veracidade.
Outra questão que se coloca é perceber como o papel exercido pela imprensa se localiza no tempo e no espaço. Deve-se olhar em que momento surge a cobertura, quando se intensifica e por quanto tempo perdura, até se diluir, para dar espaço a outros temas e fatos, a outros interesses. Convém considerar ainda a desterritorialização e, em certa medida, a desintermediação da produção dos conteúdos jornalísticos, que proporcionam alcançar, respectivamente, maior contingente de público e que este reproduza aqueles conteúdos em redes sociais virtuais da internet.
As tecnologias da informação e comunicação mudaram muito e muito rapidamente. Mas a participação da imprensa, movida por seus interesses, em processos de destituição de um presidente, mantém-se, em essência, inalterada. Foi assim na pressão dos jornais e das rádios, por conseguinte da opinião pública, exercida sobre Getúlio Vargas, que o teria levado ao suicídio, em 1954; em 1964, quando os militares retiraram do cargo o presidente João Goulart; e em 1992, quando Fernando Collor renunciou, para escapar de um processo de impeachment de resultado, para a imprensa, previsível (SOUZA, 2016; LOPES, 2016; NOGUEIRA, 2016).
“Jornais e revistas fizeram em 2016 o papel dos tanques em 1964”, relaciona Nogueira (2016), ao analisar o papel da imprensa na destituição da presidenta Dilma Rousseff. Com a mesma intenção, Lopes (2016) resgata o aspecto de uma espécie de superpoder gerado pela concentração dos meios nas mãos de poucos proprietários.
Quatro famílias decidiram: Basta! Fora! Os Marinho (Organizações Globo), os Civita (Grupo Abril/Veja), os Frias (Grupo Folha) e os Mesquita (Grupo Estado). A essas famílias somaram-se outras com mídias de segunda linha, como os Alzugaray (Editora Três/Istoé) e os Saad (Rede Bandeirantes), ou regionais, como os Sirotsky (RBS, influente no sul do país). Colocaram em movimento uma máquina de propaganda incontratável, sob o nome de “imprensa”, para criar opinião e atmosfera para o golpe de Estado contra o governo Dilma Rousseff, eleito por 54 milhões de pessoas em 26 de outubro de 2014. Foi o que algumas dessas famílias (os Marinho e os Mesquita, por exemplo) já haviam feito para derrubar o governo João Goulart em 1964. E, antes disso, em 1954, contra Getúlio Vargas. É espantosa a simetria discursiva das máquinas de propaganda na ofensiva contra Goulart e agora contra Dilma (LOPES, 2016, p. 120).
Na cronologia da destituição, os autores retomam o ano de 2003, quando se iniciava o primeiro governo do presidente Lula da Silva que, uma vez eleito, teria contrariado a preferência da parte mais conservadora dos empresários brasileiros, no grupo incluídos os empresários de comunicação. Guimarães classifica como “campanha sistemática” (p. 379) a atuação publicitária da imprensa, que se instalava naquele ano e que duraria pelos próximos governos do Partido dos Trabalhadores.
Desde 2003, as televisões, em especial a TV Globo; os maiores jornais, como O Estado de S. Paulo, a Folha de S.Paulo e O Globo; e as principais revistas, quais sejam a Veja, IstoÉ e Época, se empenham em uma campanha sistemática para desmoralizar o Partido dos Trabalhadores e os partidos progressistas e para tentar “provar”, a ineficiência, o descalabro e corrupção dos governos do PT, inclusive de seus programas sociais, que retiraram 40 milhões de brasileiros da miséria e da pobreza (GUIMARÃES, 2016, p. 379).
Ramalho (2016) também faz referência ao que classifica como “forte campanha” (p. 57) dos principais veículos de comunicação contra o governo e o partido dos trabalhadores, neste caso, voltada às suas maiores lideranças. A estratégia “foi minando o apoio popular e criando as condições políticas para dar musculatura à oposição política que durante quatro eleições seguidas fracassara nas urnas, mesmo com apoio insofismável e ilegal dessa mídia partidarizada (…)” (p. 57) – nos anos de 2002, 2006, 2010 e 2014.
Souza (2016) cita o episódio do Mensalão, ocorrido em 2005, com ampla cobertura da mídia tradicional, como “um ensaio geral [da imprensa] para o que aconteceria anos depois na [operação] Lava Jato e no processo de impedimento da presidenta Dilma” (p. 48-49). O autor aponta o ano de 2013, e mais especificamente as manifestações de rua que se tornaram conhecidas como Jornadas de Junho, como o ponto de partida da “campanha midiática” (p. 95) da imprensa associada às instituições do aparelho jurídico-policial, no processo de deslegitimar o governo eleito.
O autor chama a atenção para a “federalização das manifestações” e “personificação do descontentamento na pessoa da presidente da República” (p. 95), bem como para a construção simbólica de uma “classe média revolucionária” sobre “a fração da classe média moralista e conservadora, que sempre desprezou os pobres” (p. 100).
A novidade aqui não é o simples acordo de sentimentos e de visão de mundo, que sempre existiu entre as grandes redes de TV e os grandes jornais e esse seu público cativo há décadas. O que é novo, tornando-se um dado decisivo a partir de 2013, é a verdadeira conversão midiática desse ator político conservador normalmente discreto e recluso em “classe revolucionária” com extraordinária e súbita autoconfiança, podendo exprimir-se nas ruas sem qualquer vergonha ou pejo (SOUZA, 2016, p. 96).
A pesquisa bibliográfica aponta com clareza o papel desempenhado pela imprensa brasileira, que se ampliaria e se aprofundaria após a nova eleição da presidenta Dilma Rousseff. Não tendo mais o vigor necessário à espetacularização exigida pelos meios de comunicação, o episódio do Mensalão cedeu lugar à investigação da Lava Jato que, então, passou a municiar o noticiário da destituição que se construía no Congresso e, sobretudo, na opinião pública. A julgar pelos mecanismos utilizados, por toda a mídia, o esforço se deu como nunca se vira na história do país.
Retomando a narrativa ao ano de 2014, tem-se, em Souza (2016), que “uma série de prisões espetaculares e os assim chamados ‘vazamentos seletivos’, cuidadosamente orquestrados entre os participantes do complexo jurídico-policial do estado e a mídia conservadora, criaram uma atmosfera de linchamento político” (p. 110). O autor acrescenta que “a criminalização do PT – e, por extensão, do projeto inclusivo que ele representou – passou a partir daí a ser uma construção incansável dos dois principais parceiros do golpe: o complexo jurídico-policial do Estado e a mídia conservadora” (p. 110).
O ano de 2015 seria o primeiro do novo governo de uma presidenta que, embora legitimada pela eleição, segundo Rocha (2016), não estaria autorizada a governar pela mídia.
A mídia dominante, representada em maior peso pelos jornais e revistas de grande circulação e as redes de televisão, extremamente descontente com o resultado revelado pelas urnas nas últimas eleições presidenciais, passou a adaptar seu secular enredo a fim de defenestrar ilegitimamente uma presidente eleita pelo voto popular (ROCHA, 2016, p. 88).
A estratégia se manteve de forma aguda e ampliada no ano de 2016, até o definitivo impedimento da presidenta Dilma Rousseff. Enquanto o processo se instalava e tramitava, primeiro na Câmara dos Deputados e depois no Senado, a imprensa incorporava, como protagonistas daquela cruzada, outros atores do Legislativo, do Judiciário, do empresariado e da, por ela então chamada, vozes da rua. Em sua narrativa, Silva Filho (2016) faz uma referência àquele momento em que o governo agonizava.
Ao longo do ano de 2016, antes que o golpe de Estado fosse dado, João Roberto Marinho conspirava com políticos, empresários, procuradores e juízes golpistas e seu Jornal O Globo estampava sucessivas manchetes e editoriais de apoio ao golpe parlamentar, assim como fizeram também quase todos os jornais da grande mídia (e entre eles a Folha de São Paulo, o Estadão e a Revista Veja). A Rede Globo de Televisão teve papel decisivo e protagonista por meio principalmente dos seus programas de notícias e jornalismo (SILVA FILHO, 2016, p. 198).
Nada escapava à influência dos conteúdos veiculados pela mídia em geral, notadamente pelos noticiosos, no seu papel de impor outros discursos e outras práticas. Era preciso banir da história as camisetas vermelhas dos partidos alinhados à esquerda. Era preciso emplacar uma nova palavra de ordem, como “Muda Brasil”, na análise de Souza (2016), “como forma cifrada de invocar a verdadeira bandeira – ‘Muda (de governo) Brasil’ – passaram a dominar o imaginário das manifestações” que levavam os mais ricos para as ruas (p. 94).
Numa referência ao resultado do esforço da imprensa expresso naquelas manifestações – que foram estimuladas e enaltecidas pelos meios, como se verá a seguir, Kucinski (2016) analisa que “seus filhotes [das classes médias], bem nutridos, trocaram as camisetas de grife por camisetas verde-amarelas de um patriotismo que nunca sentiram e, açulados por uma mídia venal, investiram, em topelias obscenas, contra o vermelho do PT” (p. 126).
O modus operandi da imprensa
O papel exercido pela imprensa na destituição da presidenta Dilma Rousseff fica mais claro quando se observa o modo como jornalistas e empresários da comunicação operacionalizaram seus esforços. Costa (2016) considera que a imprensa agiu como um partido político. Afirma que “a linha editorial da ‘grande’ imprensa brasileira é falaciosa, enganadora, inverídica, confirmando a correção de sua denominação como PIG: Partido da Imprensa Golpista” (p. 186).
Para Carballido (2016), o que concorreu para a destituição da presidenta, no tocante ao papel da imprensa, foi “una descarada manipulación por parte de los más importantes medios privados de comunicación e información (y de producción de opinión), marcando agenda, ocultando hechos, tergiversando versiones, sobre-representando parte de la realidad en el imaginario social” (p. 351). No mesmo sentido avalia Énders (2016), para quem “os grandes grupos de imprensa, TV Globo à frente, conduziram uma campanha desavergonhada contra a presidente e contra o PT” (p. 112).
Outro aspecto citado pelos autores é o da seletividade das informações veiculadas pela imprensa de “porte histórico elitista” (NAGIME, p. 303), que, desta forma, restringiria do público a capacidade de conhecer aspectos da realidade e de formar um juízo isento sobre a notícia. Para a autora, durante o processo de destituição, “a mídia de massa passou a ser um forte instrumento para dar credibilidade a ilações, quando vindas do governo democraticamente eleito, assim como abafar crimes comprovados, quando vindos da oposição golpista” (p. 303).
A seleção de certas notícias necessárias à construção de uma opinião pública favorável à destituição corresponde a uma omissão da imprensa, e esta a uma ferramenta para a desinformação exigida pelo projeto de banir a presidenta, ou os males que ela representaria. É o que sugere Rocha (2016), ao analisar o papel desempenhado pela imprensa à época.
Questões de extrema importância são deixadas propositalmente de lado, afinal não se busca a imparcialidade da notícia, mas a criação de um enredo que leve todos à salvação através da exterminação do mal, justificados os meios para consecução deste fim. Por conseguinte, as ilações ganham status de prova, as especulações são tidas como raciocínios lógicos incontestáveis, eu o ‘senso de justiça’ de cada um se firma como fundamento robusto e suficiente para um decreto condenatório (ROCHA, 2016, p. 89).
Outros autores apontam o objetivo da imprensa de desqualificar e até de criminalizar também os apoiadores da presidenta Dilma Rousseff, o que teria contribuído à geração de um clima de ódio a estes eleitores, uma intolerância classificada por Souza (2016) como “protofascismo” (p. 101). O autor afirma, a respeito da desqualificação, que “o Jornal Nacional sugeria em suas coberturas que os ‘amarelinhos’, quando iam às ruas, reagiam espontaneamente, enquanto os ‘vermelhos’ eram militantes profissionais sectários” (p. 101).
Grabois (2016) registra a participação dos meios de comunicação no esforço de criminalizar os que se opunham ao impeachment, o qual seria praticado por todos os agentes interessados na destituição da presidenta. Afirma a autora que “esse movimento que busca golpear a democracia tem apoio de parte da grande mídia, que criou uma narrativa de ódio e de criminalização das forças progressistas e dos movimentos sociais, propiciando o surgimento de discursos e atitudes fascistas nas relações pessoais e cotidianas na vida em sociedade” (p. 77).
Há, entretanto, um ponto que une as análises dos autores que se dedicaram a avaliar o papel desempenhado pela imprensa, na construção da destituição, qual seja o uso das informações produzidas seletivamente pela operação Lava Jato para desqualificar o Partido dos Trabalhadores, o governo do partido, daí o mandato presidencial; ou, na via inversa e complementar, para credenciar o juiz federal responsável pelo caso, Sérgio Moro, promotores e outros atores da Justiça a produzir e publicizar aquelas informações necessárias à parceria.
Foram citadas por Assis (2016), Uchôa (2016), Guimarães (2016), Esquivel (2016) e Feitosa (2016), como expressões de uma parceria mídia-Justiça são citadas, por um lado, a visibilidade positiva reservada pela imprensa a cada novo movimento dos membros do Judiciário naquela operação, por outro o vazamento de informações de forte apelo midiático ou a realização de ações espetaculares por parte do sistema polícia-Ministério Público-Justiça com dia e hora agendados com a imprensa. A este respeito, afirma Assis:
Diuturnamente, os oligopólios distribuídos entre meia dúzia de famílias abastadas passaram a servir apenas aos interesses da classe dos patrões, disseminando manchetes ocas de veracidade, mas plenas de gatilhos jurídicos. Desta vez, o Judiciário, que na ditadura entrou em cena depois do golpe dado, para sustentar a repressão, as prisões ilegais e os desaparecimentos, resolveu entrar em campo na preliminar. Desta vez, referendando notícias falsas veiculadas na mídia, fruto de “informações” contrabandeadas de operações espetaculosas, carentes de apurações e investigações mais aprofundadas (ASSIS, 2016, p. 95-96).
O quadro abaixo ilustra a convergência de avaliações que fazem os autores a respeito do papel da imprensa na destituição da presidenta Dilma Rousseff, com ênfase na atuação paralela e parceira com a Justiça.
Ideia-chave Avaliação
Circo – Armou-se um circo, onde um juiz obscuro, alçado à condição de super-herói, foi aplaudido e incensado por todos os veículos de comunicação, por humilhar, sequestrar e espionar ao arrepio da lei que deveria seguir. Como esses processos costumam ter efeitos colaterais, asfixiou as ações de uma presidente proba, desleixando dos reais corruptores (ASSIS, 2016, p. 96).
Factoide – A grande imprensa do país escancara apoio à pretendida destituição presidencial, patrocinando a disseminação de todo o qualquer factoide possível para manter a sociedade absolutamente confusa diante dos fatos em apuração no Congresso. (…). A operação Lava Jato vem servindo de munição para robustecer a mídia em seu processo de manipulação de opinião pública (UCHÔA, 2016, p. 282).
Vazamento – Fazem isto divulgando dia a dia s declarações de delatores, criminosos confessos, e de procuradores, policiais e juízes que as “vazam”, seletivamente, para os meios de comunicação, cometendo notória ilegalidade, e publicando notícias sobre o extraordinário descalabro e corrupção em que viveria o país (GUIMARÃES, 2016, p. 379).
Vazamento –  É o mesmo procedimento dos ensaios realizados anteriormente: o uso massivo dos meios de comunicação para alimentar um processo de desprestígio por meio de uma série de acusações, a cumplicidade de alguns juízes, como é o exemplo de Sérgio Moro, que chegou a vazar escutas telefônicas privadas envolvendo o ex-presidente Lula e a própria presidente da República (ESQUIVEL, 2016, p. 76).
Vazamento – A Operação lava Jato, levada a efeito pela Justiça Federal, e sua estranha parceria com a grande mídia, com vazamentos seletivos, exibidos com estardalhaço nos noticiários televisivos, com destaque para a TV Globo, transformou seus atores, membros do Judiciário Federal, em heróis nativos, justiceiros e vingadores, que, em nome do combate à corrupção, poderiam cometer excessos processuais e legais (…) (FEITOSA, 2016, p. 379-380).

Exclusão informativa
O presente artigo analisou dados obtidos em pesquisa bibliográfica sobre o papel desempenhado pelos meios de comunicação, notadamente a imprensa, no processo que culminou com a destituição da presidente Dilma Rousseff do cargo, bem como a sua possível interface com o quadro de exclusão comunicacional – e de debilidade da esfera pública – que caracteriza o Brasil; teve como objeto de estudo as representações que fazem diferentes vozes que se colocam como dissonantes à versão de impeachment acolhida prevalentemente pela mídia tradicional.
Depois de apresentar alguns aspectos conceituais de exclusão comunicacional, entendida aqui como a restrição ao direito de comunicar – de informar e de ser informado, de se expressar e de dialogar -, o artigo tratou de relacionar os meios de comunicação no Brasil e a destituição. Percebeu-se, entre outras características, que o sistema de comunicação brasileiro é uma ferramenta política da classe hegemônica; que seus meios, concentrados nas mãos de poucos donos, são excludentes em relação a quem, ao que e ao como se fala; que seus conteúdos são manipulados segundo os interesses políticos e econômicos privados; que têm servido a projetos antidemocráticos e injustos; e que pouco avançaram depois do Regime Militar, e até regrediram após a Constituição de 1988.
O artigo também tratou da atuação da imprensa no passo a passo da destituição, por meio da qual se verificou que ação semelhante ocorrera contra os presidentes Getúlio Vargas (1954), João Goulart (1964) e Fernando Collor (1992); que, desta feita, a ação oposicionista da imprensa teria se iniciado no primeiro governo do presidente Lula da Silva (2003); que o caso Mensalão (2005) serviu de ensaio ao que se executaria dez anos depois; que o ponto de partida para a campanha pela destituição foram as Jornadas de Junho (2013), quando se verificaram a “federalização” das insatisfações manifestadas nas ruas, a “personificação” das causas destas na pessoa da presidente Dilma Rousseff e a criação de uma “classe média revolucionária” para o front da campanha.
E abordou, finalmente, o modo utilizado pela imprensa no seu contributo à destituição, através de que se observou o exercício de papel coadjuvante, mas fundamental, comparado ao de um “partido político” a encetar uma “campanha desavergonhada”, uma “descarada manipulação”; a atuação com seletividade, em relação à pauta – ademais da omissão -, satanizando o PT e a presidenta Dilma Rousseff, e sacralizando o juiz federal Sérgio Moro e a Justiça; e a espetacularização de notícias fomentadas por ações produzidas ou por informações vazadas da Justiça para os meios de comunicação.
Diante do exposto e analisado, é possível aferir validade à hipótese inicialmente levantada de que a imprensa teve importante papel como coadjuvante da destituição, deslocando sua atuação do âmbito do jornalismo para o da publicidade, ou do interesse público para o interesse privado. Espera-se, desta forma, haver contribuído com o esclarecimento, se não tanto sobre um possível golpe de Estado travestido de processo de impeachment, pelo menos sobre a atuação que empresários de comunicação e jornalistas tiveram no episódio, o qual, pelas razões analisadas aqui, não teve lugar digno nos conteúdos da imprensa, e, talvez, também não venha a tê-lo no curso da história.
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Alberto Perdigão é doutorando em Ciências da Cultura da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro-UTAD, mestre em Políticas Públicas e Sociedade e professor do curso de jornalismo da Unifor